02 de agosto de 2026
Invernada
Crônica poética sobre o inverno gaúcho na serra.
Por Admir Zanella

Crônica poética sobre o inverno gaúcho na serra.
O inverno no sul do Brasil é rígido, muitas vezes. A geada branqueia campos e pinheiras. Até as ovelhas lanudas no pasto sofrem. O cavalo sapateia e apruma sopros esfumaçados ou fica imóvel e solta seu leve vapor da respiração. O gado berra e não desiste de pastar. O chiar da madrugada indica água pronta para o chimarrão. Soa algum canto de pomba selvagem a anunciar que o gaúcho está vivo. Acordou de leve. A prenda dorme. Os filhos ainda estão para nascer. Só o travesseiro consegue matar a solidão. Necessita de vários tiros. Secos. Estridentes. Roçados de boas intenções.
O braseiro ainda sobrevive após a noitada de vento minuano. O caminho da lida campeira congela barulhos inapropriados. Não tem aquelas desrespeitosas cantorias de igrejas a obrigar o povaréu ouvir. O templo é silêncio, lugar apropriado à manifestação de Deus. A propaganda serve para tentar esquentar viandantes muito frios. Por isso é alguma coisa boa. No entanto, só a seriema alcança a altura iluminada. Galos assustam até sono. É o suave rangido da quietude dos gramados que esquenta o espírito. Ao longe, o nascente espia a alma gelada e a faz pulular.
Assemelha-se à dança de peru em chapa de fogão quente. O vivente é espetado pelo espinho da roseira ao lado da janela. A resistência da casa cai. As portas abrem e a fé entra. A meia-noite clareia. A promessa de neve descambou pelo lajedo do rio que corta as duas invernadas e sacia a criação. Não há cabras! Se as houvesse, teriam a fartura da mesma água. Embora aqui representem o descaminho dos campeiros, beber da natureza é direito concedido pelo Criador. Ainda mais que o sol apareceu e aquece os cascos da bicharada.
A bombacha me sacode e me puxa a descrever este elo apaixonante. É atração quase descabida, louca. Talvez sonho de jovem em fixação por alguma prenda. O esvoaçar do avolumado vestido a entrar na mente. O eriçamento da ânsia, vontade de explodir sentimentos. Em frente, há somente o horizonte aberto. É por lá que vôo. Livre, leve e apressado. Assado em interlocuções que só a mim pertencem. No entanto, extravasaram nessas linhas. São por demais preciosas para guardá-las unicamente no esconderijo deste coração. Amo o pampa e esta é minha estância. Meu corpo vive aqui na serra, enquanto minha alma habita por lá e me estampa. Cá me vou, antes que desfaleça. Estou distante de meu chão.